por Vinícius Cordeiro
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Eram cinco e meia da manhã, e o sono ainda fazia parte dos meus olhos, que recusavam se abrir. O relógio, vilão de todas as horas, assombrava os compromissos, e a vontade era vencida pela necessidade. Todos esses dias da minha vida, em que tive que acordar cedo, eu me perguntava: afinal, porque eu estou fazendo isso? Mas mesmo sob questionamentos, eu sabia, lá no fundo, que um dia a recompensa chegaria.
Alguns preferiam o aperto do ônibus, outros, a subida árdua, outros davam sorte e ganhavam carona, mas tudo para enfrentar algumas horas de estudo. E eu me perguntava: porque é que eu estou fazendo isso? Mas permanecia subindo, e subindo, até chegar à escola.
Os dias se passaram, meses, anos, até que os acontecimentos viraram rotina, e o cansaço dava lugar a outro sentimento, a recompensa. Mesmo o sono ainda me assombrado às cinco e meia, o relógio gritando e a árdua subida castigando, chegar à escola e encontrar um sorriso e um abraço, logo pela manhã, talvez fosse a melhor das recompensas.
Hoje, sentimos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos. Dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... Do companheirismo vivido...
Hoje, percebemos que o relógio não era tão ruim assim, que a subida poderia até ser um pouco menos desgastante que parecia, e que algumas horas de estudo não fazia mal a ninguém. E percebemos que, enquanto reclamávamos de tantas minúsculas coisas, não percebíamos o que realmente faz nossa vida fazer sentido. Amigos, amores, irmãos de convívio.
Os tantos anos que passamos naquela escola foram tão ricos, não apenas pelo simples fato de aprendermos as lições, toda aquela teoria. Mas aprendemos a prática, aprendemos a viver. Entramos no Dom com o mais ingênuo dos pensamentos e saímos com uma bagagem imensa de ideais e opiniões sobre os mais variados temas. Vivemos tanta coisa boa, tantas situações engraçadas. É difícil largar tudo isso, abandonar uma vida criada aos poucos, amizades conquistadas, tudo praticamente jogado pro passado.
E o tempo, quer a gente queira ou não, passará sem dó ou piedade, deixando para trás um presente agora inalcançável. Um dia, quem sabe, remexendo nas coisas do passado, nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? E isso vai doer tanto. Eram meus amigos. E só então, só depois de termos nos perdido no tempo, que veremos como era gostoso rir das besteiras da vida, como era bom andar por aqueles corredores, e bagunçar um pouco aquela escola. Só então perceberemos que são as simplicidades da vida que realmente fazem tudo valer a pena.
Nesses tantos anos de estudo, aprendemos que a lousa não é o melhor lugar para se deixar uma cola de prova, aprendemos que jamais se deve subestimar o poder de um pombo, mas acima de tudo, aprendemos o valor da amizade. Aprendemos que, por mais adversidades que esse mundo tenha, o poder de um abraço amigo numa hora de aflição é infinitamente incomparável. Por isso eu tenho a certeza de que a adolescência foi a melhor época que eu já vivi.
E se algum dia alguém me perguntar: quanto vale sua história? Eu irei responder, como toda a certeza do mundo: Minha história, não tem preço.
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